sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ótima hermenêutica para o caso entre Israel e os gibeonitas: "para que os enforquemos a JAVÉ" (I Sm 21:1-14)


Os que estudam a Bíblia de forma profissional compreendem que a interpretação coerente de uma determinada passagem pressupõe a obediência às assim-chamadas regras hermenêuticas. Como ciência da interpretação, a hermenêutica constitui uma valiosa ferramenta, especialmente quando tentamos propor soluções plausíveis para nódulos interpretativos em textos que se distanciam de nós no tempo e no espaço. Trata-se, portanto, de uma técnica levada a sério pelos diferentes tipos de intérpretes.
No caso específico das Escrituras, gostaria de propor uma regra hermenêutica que tem sido de fundamental importância para meu relacionamento com o texto sagrado e que tem norteado a minha forma de entender e fazer teologia. Essa regra pode até já ter sido mencionada por outros estudiosos da Bíblia, afinal nada novo ocorre debaixo do sol. Aliás, o autor de Eclesiastes é bastante sensível quanto ao que se passa “debaixo do sol”. Depois de dizer que “nada há, pois, novo debaixo do sol” (Ec 1:9) e que “o  homem não consegue compreender a obra que se faz debaixo do sol” (Ec 8:17), o autor emprega a expressão “debaixo do sol” em outros 27 versículos de Eclesiastes, sendo que, em alguns casos, a emprega duas vezes no mesmo versículo (8:15; 9:9). Portanto, é possível (de fato, muito provável) que você já tenha ouvido a regra que vou mencionar. Ainda assim, é preciso insistir que essa deveria ser a primeira regra de interpretação das Escrituras.
Os autores bíblicos empregam, com frequência, o predicado nominal para fazer suas descrições da Divindade. O predicado nominal compreende uma estrutura sintática formada por um verbo de ligação e, geralmente, um adjetivo. É precisamente isso que ocorre quando as Escrituras declaram que Deus “é zeloso” (Dt 4:24; 6:15), “é único” (Dt 6:4; Mr 19:29; Rm 3:30; Gl 3:20, Ti 2:19), “é fiel” (Dt 7:9; 1 Co 10:13; 2 Co 1:18), “é justo e reto” (Dt 32:4), “é misericordioso e compassivo” (2 Cr 30:9; Sl 116:5), “é grande” (Jó 36:5, 26), “é bom” (Sl 73:1), “é tremendo” (Sl 89:7), “é misericordioso” (Sl 116:5), “é verdadeiro” (Jo 3:33) e “é poderoso” (Rm 11:23). Linguisticamente, essas expressões apresentam aspectos do caráter de Deus e não pretendem se referir a Sua mais íntima essência.
Às vezes, porém, o predicado nominal é formado por verbo de ligação seguido de um ou mais substantivos qualificados por artigo indefinido, pronome possessivo, adjetivo ou locução adjetiva. Isso ocorre, por exemplo, em expressões como “Deus é a minha fortaleza” (2 Sm 22:33; Hc 3:19), “é o meu escudo” (Sl 7:10), “é um justo juiz” (Sl 7:11; 75:7), “é o nosso refúgio e fortaleza” (Sl 46:1; 62:8), “é o Rei de toda a terra” (Sl 47:7), “é o meu ajudador” (Sl 54:4), “é meu alto refúgio” (Sl 59:9, 17), “é a nossa salvação” (Sl 68:19), “é o nosso libertador” (Sl 68:20), “é minha herança” (Sl 73:26), “é sol e escudo” (84:11), “é minha salvação, minha força e meu cântico” (Is 12:2; 49:5); “é uma rocha eterna” (Is 26:4) e “é fogo consumidor” (Hb 12:29). Esse tipo de estrutura sintática aponta mais para o relacionamento de Deus com os seres humanos, explicitando em qual de Suas muitas capacidades Deus atua sobre os diferentes indivíduos ou grupos de indivíduos em determinadas situações.
Mais raramente, porém, o predicado nominal se constrói de tal forma que o substantivo aparece sem qualquer qualificação. Na verdade, isso acontece quatro vezes nas Escrituras. Nessas raras ocasiões, parece, de fato, que temos um vislumbre da própria essência da pessoa divina. Quando isso ocorre, o que se diz sobre Deus nos remete a uma compreensão mais precisa de Sua própria natureza: “é fidelidade” (Dt 32:4), “é espírito” (Jo 4:24), “é luz” (1 Jo 1:5) e “é amor” (1 Jo 4:8, 16). Por isso, uma dada interpretação das Escrituras não pode ser coerente se não reconcilia seu ponto de vista com o resultado cumulativo de apresentar a Deus como sendo fidelidade, espírito, luz e amor.
A título de exemplificação, façamos uma experiência com a passagem tratada pela lição da escola sabatina na semana passada (20 a 27 de novembro de 2010). Trata-se da história de como Davi permitiu que os dois filhos de Rispa e os cinco filhos da irmã de Mical fossem enforcados pelos gibeonitas para lhes prover satisfação pela violação inadvertida de um antigo acordo entre os israelitas e os descendentes daquele povo (2 Sm 21:1-14). A terra de Israel estava padecendo de uma prolongada seca porque Deus percebera a impiedade dos israelitas por causa da violação daquele pacto. Muitos gibeonitas haviam sido assassinados pelos israelitas quando Saul, agora falecido, fizera um ataque às forças dos amorreus, com quem estes entretinham relações de parentesco. O que o texto bíblico afirma expressamente é que, incomodado pela duração prolongada da seca, Davi buscou de Deus uma explicação para a fome que se alastrava sobre o povo. A Bíblia não nos dá qualquer informação sobre a forma como Deus deu a resposta a Davi. O que sabemos é que o incidente com os gibeonitas foi dado como causa dos atuais padecimentos de Israel.
Como resultado disso, os gibeonitas exigiram, como reparação, a morte de sete dos filhos de Saul. Escolhidos por Davi, os sete rapazes foram enforcados “diante do Senhor” (2 Sm 21:9). O desfecho da história pode levar os leitores a supor que Deus tenha exigido uma espécie de sacrifício humano para que Sua ira fosse aplacada. Entretanto, em lugar algum a Bíblia faz essa declaração. Ao verbalizarem seu pedido ao rei, os gibeonitas declaram que prentendiam enforcar os rapazes “ao Senhor” (2 Sm 21:6). Porém, é preciso lembrar que os gibeonitas eram, em certo sentido, uma nação meio pagã aparentada com os amorreus. Não há razão para supormos que seu desejo expressasse a vontade de Deus para o desfecho do caso.
Se optarmos por aplicar a regra hermenêutica que proponho de reconciliar essa passagem das Escrituras com o que a Bíblia declara expressamente acerca do caráter de Deus, não será mais possível considerar que Deus, de fato, pretendia que o sangue dos rapazes fosse derramado a fim de que isso fosse considerado uma reparação à violação da aliança entre israelitas e gibeonitas. É verdade que Deus leva a sério o pacto que estabeleceu com o povo de Israel; no entanto, não há nenhuma sugestão, na forma como a história é narrada, de que a aliança entre os dois povos pudesse ser contemplada como um tipo do pacto entre Deus e Seu povo. A tipologia não é um procedimento hermenêutico de aplicação automática. Para que a tipologia funcione, é necessário que o texto em questão guarde relações explícitas com a história da salvação.
Deus é fidelidade, espírito, luz e amor. A exigência meramente sintomática de uma reparação de sangue para um crime de sangue assume contornos de vingança pessoal ou “vendetta” tribal. Isso é incompatível com o caráter que as Escrituras atribuem a Deus. Parece que, no relato de 2 Samuel, o rei Davi sucumbiu ao desatino de indagar a uma tribo semipagã o que seus membros considerariam como reparação adequada para a violação da aliança que se firmara com eles. Sua resposta foi tão sanguinária quanto a ação criminosa empreendida por Saul; no entanto, compreensiva à luz das práticas pagãs das nações daquela época. Por isso, minha proposta é a de que Deus tenha tolerado a execução dos rapazes como forma apropriada de uma nação pagã exigir compensação pela infidelidade do povo de Deus. O que Deus permitiu que acontecesse nos dá muito mais informações acerca das práticas do ambiente pagão em que, de certa forma, os israelitas estavam inseridos do que acerca de Sua vontade ou forma preferencial de lidar com a situação. Deus não exigiria o enforcamento dos rapazes como parte de Sua vontade explícita para os israelitas, mas Ele o tolerou porque entendeu ser essa uma forma suficientemente persuasiva para indicar que, no contexto pagão que rodeava os israelitas, a violação de um pacto de não agressão tinha consequências graves. Uma evidência disso é que não foi o enforcamento dos rapazes que pôs fim à seca que desolava a terra de Israel. É apenas quando Rispa, a mãe de dois dos jovens enforcados, expressa sua ternura e desconsolo diante da situação, que se transcende o impasse. Sua atenção ao sepultamento dos jovens executados enternece o coração dos israelitas. É quando o coração desses guerreiros calejados fica tocado pelo desespero da viúva de Saul que o Deus de amor, luz e fidelidade pode deixar que o afeto carinhoso que provém de Suas entranhas chegue aos israelitas sob a forma da chuva que lhes rega a terra e lhes abranda a alma.
Se Nietzsche compreendeu corretamente alguma das teses do cristianismo, podemos invocar sua explicação para o surgimento da doutrina da redenção. No capítulo 30 de sua obra O anticristo, o filósofo afirma que essa doutrina advém de dois fatos da pregação de Jesus: em primeiro lugar, o Salvador tinha uma repugnância instintiva contra a realidade; e, em segundo lugar, o amor é a única e última possibilidade de vida de acordo com os evangelhos. Um apologeta do cristianismo não poderia ter declarado seus insights sobre essa questão de forma mais exata e convincente. Jesus não aceitava a realidade da vida pecaminosa e, por isso, contestava a validade de apenas existirmos em uma sociedade corrompida por todas as espécies de vício e maldade. Além disso, é o amor que o define como pessoa humana e como o divino filho de Deus. Qualquer leitura das Escrituras que atente contra essa compreensão faz violência contra a natureza de Jesus. Um antipático inimigo do cristianismo, descrente e empedernido, foi capaz de perceber isso. Não posso deixar de esboçar um gesto de surpresa quando percebo que os próprios cristãos somos tão lentos para compreender que, sem o amor, até mesmo a solidez de nossas convicções doutrinárias vira um eco remoto que, aos poucos, perde todo o sentido...
Fonte: Prof. Milton Torres. Edição por Hendrickson Rogers.

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